Tive o meu primeiro telemóvel quando entrei na faculdade. Na altura, embora não fossem raros, a verdade é que o telemóvel ainda não fazia parte do nosso dia a dia. Esse telemóvel que recebi umas semanas ou meses antes de migrar para Coimbra era da minha irmã, a qual não gostava de andar com tal atrelado à semelhança do que acontece ainda hoje.
Parado durante esse período, mesmo em Coimbra era raro ele sair à rua visto só o utilizar para falar com os meus pais sem ter que ir para, as então, enormes filas que se formavam nas cabines telefónicas da Praça da República.
Até meados de 2000 ou mesmo 2001 vivi sobre o signo do “combinado”. Passo a explicar. Se um grupo de amigos combinava estar a tal hora num local, seria por volta dessa hora que o grupo se formava sem qualquer preocupação ou “stress” por falta de comparência à exacta hora marcada. Se passados 3 minutos da hora alguém ainda não tinha chegado esperava-se pois devia estar a chegar.
A minha infância e juventude, até aos primeiros anos da idade adulta, foram vividos desta forma.
Hoje, olhando para trás, é formidável a forma como na altura miúdos de 10 anos combinavam algo para domingo à tarde na semana anterior e no dia marcado, por volta da hora marcada, os “convocados” estavam presentes.
Hoje, ao combinar-se algo para domingo numa sexta, a resposta normal é “depois telefono-te a confirmar”. E depois, no momento, e passados 2 minutos da hora marcada começam desde logo a chover telefonemas para aferir a razão do atraso.
Nos meus tempos de boémio em Coimbra, naqueles inícios de tarde em que não apetecia mesmo nada ir às aulas, não se telefonava a perguntar onde o pessoal estava. Simplesmente traçava rumo para o “Pinto” na esperança de encontrar uns quantos calões como eu. E se não estivesse lá ninguém, por infelicidade do destino, o remédio era esperar... sem preocupações.
É incrível como essa capacidade perdida sai extremamente cara para qualquer indivíduo. Basta ver o extracto do telemóvel para rapidamente chegar à conclusão de que boa parte das chamadas efectuadas têm uma duração inferior a dois minutos do que se depreende que foram realizadas para confirmar horas, ver se alguém estava em casa, para saber se alguém ainda chega hoje, etc.
Morreu esse costume. Hoje estamos dependentes do telemóvel também para isto. Até crianças de seis anos telefonam umas para as outras para saber se o colega de brincadeira depois da escola vem ter ao local combinado, não obstante o facto de terem combinado o encontro à menos de uma hora, à saída da sala de aulas!
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